| Médico desligou o ventilador que há nove anos ligava Welby à vida Inês David Bastos |
| Foram 88 dias de luta pelo direito a morrer. Pelo direito a pôr fim ao sofrimento de ser refém de um corpo que uma distrofia muscular progressiva aprisionou a uma cama, já lá iam mais de nove anos. A luta do italiano Piergiorgio Welby, de 60 anos, terminou na noite de quarta- -feira, quando um médico anestesista do hospital de Crémone, em Roma, desligou o ventilador que o ligava à vida. O acto do clínico pôs fim ao combate e ao sofrimento de Welby, mas não à polémica sobre a eutanásia que voltara a agitar a Itália desde o dia em que Pergiogio pediu para morrer. A classe política está agora mais dividida, o país também. "Acedi à sua vontade de morrer", reconheceu ontem o médico Mario Riccio, numa conferência de imprensa organizada pelo Partido Radical (membro da coligação de esquerda no poder), que desde o início apoiou o combate de Welby. O clínico - que já foi ouvido pela polícia, bem como dirigentes do Partido Radical - admitiu que desligou o ventilador e que administrou sedativos ao doente. "Eu não vi algum obstáculo... considerando que o direito reclamado por Piergiorgio é reconhecido e largamente praticado em Itália", argumentou Mario Riccio. Quer o clínico, quer os advogados de Welby alegam que a decisão se baseou no direito que um doente tem de recusar um tratamento, reconhecido pela Constituição, e rejeitam a tese de eutanásia, punida em Itália com pena de prisão que pode ir até aos 15 anos. Um dos advogados de Piergiorgio disse mesmo que o nome de Welby "ficará para a história" pois permitiu fazer a "distinção entre recusa de cuidados médicos e eutanásia". Mas a tese não é consensual. Direita exige prisão Para o deputado de centro-direita Luca Volante o que está em causa é precisamente eutanásia. O parlamentar pediu "a prisão dos culpados deste homicídio", acusando o clínico de ter praticado" um acto violento, escandaloso e instrumentalizado pelo Partido Radical". Foi a 21 de Setembro último que Welby enviou uma carta aberta ao presidente da República a pedir que lhe fosse concedido o direito de morrer. Em jovem fora-lhe diagnosticada uma distrofia muscular, que o mantinha prostrado numa cama desde 1997 e dependente de um ventilador. Pouco depois, seguia um recurso para um tribunal civil de Roma. Mas a juíza rejeitou o pedido, alegando existir um "vazio jurídico" sobre a questão. E atirou a "bola" para os políticos, que esgrimiram argumentos. A ministra e dirigente do Partido Radical, Emma Bonino, fez greve de fome. Fizeram-se vigílias. A Igreja Católica opôs-se. Foram 88 dias de luta. Um combate a que Mario Riccio pôs fim. Fazendo a vontade a Welby. |
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